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Tive um sonho, e Dinho me disse.

Quase nunca recordo minúcias dos meus, mormente conturbados e às vezes aterrorizantes, sonhos. Mas dessa vez, e de algumas outras poucas, eu me lembro. Como não acredito em acasos, até porque são todos eles altamente improváveis ante o Ajuste Fino do Universo Divino, sei: foi uma mensagem. Sonhei com Dinho, aquele mesmo que o Brasil aprendeu a amar (e até a adorar), o vocalista da banda Mamonas Assassinas. Vocês sabem da tragédia, aqueles cinco meninos sonhadores afundaram na Serra da Cantareira, o Brasil que amava chorou, crianças gritavam de dor, um buraco infinito ficou, e a pergunta não se calou: “Por quê? Por que eles?”.

Sobre meu sonho. Só me vem com nitidez um naco: encontrei Dinho, Alecsander Leite Alves, nem sei se sorrindo como sempre; sei que olhei para ele, acho que dei um tapinha em seu ombro, e disse com uma delicadeza firme que assusta a mim mesma: “Dinho, pode ir, tu já cumpriu tua missão”. Eu disse com uma autoridade estranha, que eu não tenho na verdade. Ou não tinha.

Já não vou entrar no labirinto metafísico de ter sido o próprio Dinho, preso em alguma dimensão, ou se apenas em recado do Cosmos. Porque foi sim um recado. Mas ninguém vai tirar minha fé sem explicação.

É a mensagem de que, de alguma forma, todos nós temos uma missão na terra. Se além dela? Não me pergunteis!

Iremos cumpri-la? Sabemos qual é, ou um dia saberemos? Porque nunca teremos certeza de quantas vidas tocamos, quantos destinos mudamos, e o quanto pequenos atos, quase invisíveis, transformaram toda a nossa jornada, e a de quantos, e construíram nosso porto de chegada (provisório?). Teremos atingido então o fim da nossa missão, e de todas as pequenas missões dentro dessa missão (incontáveis!).

A gente se vai depois de cumprir nossa missão.

Alguns a completam muito rápido, então “é tão estranho, os bons morrem antes” (Renato Russo, um bom que se foi rápido). Ou a missão era curta mesmo. Não por isso menos especial. Saber disso, da mensagem do sonho do Dinho, da missão que cada um de nós tem ou escolhe se vai fazer, e depois, tudo acertado, vai embora, saber isso tudo consola?

É claro que não.

Somos humanos, designados ao próprio fim, repugnante decomposição química, “alegre festim de vermes” (estaremos vencidos, Augusto dos Anjos), ao menos em carne.

Não me venham com ditames: nunca o ente humano vai entender bem e plenamente acatar as despedidas dolorosas. E a nossa própria. Que não sabemos quando é, na verdade nunca sabemos direito.

Do Dinho, eu me lembro do sorriso contíguo, largo e brilhante. E é isso o que importa, sabe? Como as pessoas vão se lembrar de nós aqui embaixo. Dentro delas. Notavelmente, aqueles que amamos. Todos, um dia, vamos… vamos embora. É uma conexão em uma viagem maior. Como Lito Sousa foi, de repente, em um voo a jato, seu mais triste. Cumpriu-se. Plaina agora por outros céus, o que arde é não saber onde, e se não é aqui mesmo, só sem podermos ver.

Sobre meu sonho e a missão: quisera eu saber todos os erros necessários, e os acertos totalmente dispensáveis para que eu chegue lá; cumpra-me. E, me cumprindo, te cumpra no teu caminho. Nada é por acaso, não me venham com chorumelas; uma molécula atônita explode uma bomba atômica. Tudo concatenado.

Deus, Deus meu, que eu cometa todos os terríveis pecados que devo, e não faça o limpidamente certo quando não for para fazer. E assim termine minhas missões, de missão em missão, de pessoa em pessoa, lugar em lugar, perdição em perdição. E só então eu me vá em paz (mesmo inconformada ou irresoluta), e tenha deixado algum conforto, memória, amor. Amor. Deus disse que Ele é Amor, seria essa a missão de toda missão humana? Seja como for.

A gente sonha de olhos fechados, mas precisa sonhar mais de vistas abertas, coração aberto, mente aberta, fé sincera.

Hoje à tarde não tem café. Apenas sonhos, saudades e finais…

Leila Krüger 🥀

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