Choveu por aqui. Choveu bastante, a terra precisava ser limpada, e o coração. Veio o café, e o bilhete mental, vários bilhetes; pairando no marrom fumegante da xícara como um iceberg paira no mar gelado: parte visto, e a maior imensa parte submerso. O que eu quis omitir ali?
Sabe, há coisas que te alcançam em uma tarde cinza de sexta-feira com um café na mesa. É bom sextar, mas sempre após a tempestade da Natureza vêm recados. Não sei dizer quais exatamente. Parecem sussurrar, mas podem ser brutais.
Para onde ir? O que fazer? Quem ser, quem fui, quem sou, e como o café pode guiar minhas escolhas?
A que temperatura quero meu café, e com ou sem leite. Com ou sem quem. Quem quero perto de onde eu estiver, quem não quero, quem preciso buscar de volta, quem perdi, e de quem na verdade me libertei ao chorar. Medos. Secretos, escondidos e encolhidos, medos que me desafiam.
Beberico o café, e estou sorvendo tudo isso que escrevi no meu recado para eu mesma. Errei demais? Errei o necessário? Qual foi a falha mais indispensável, e qual o “acerto” que eu NÃO devia ter escolhido?
Certo, errado, receitas de bolo, destinos, essas coisas não são tão simples. Te ofereço um café. Te convido a refletir. Não demais, que machuca muito. Não de menos, que é como não viver e apenas habitar um planeta de metal e dois dígitos. Mas o café líquido. Posso mergulhar nele, e aprender a nadar. Nadar dentro de mim sem me afogar. Uma beleza. A vida pode ser bonita, me pareceu de repente. Mesmo às vezes cinza. E eu gosto de tempo nublado: acho que sei ler nuvens.
Leila Krüger🌹
