Hoje, nos vemos submersos em um mundo digital e digitalizado; mais que isso, agora a pele do mundo é a Era da Inteligência Artificial que maximizou os simulacros. Nossa identidades pessoais estão à deriva, tudo flutua no mar de dados.
Mas toda tecnologia é uma faca de dois gumes, no sentido de techné, do grego τέχνη: um conceito filosófico da Grécia Antiga que significa “arte”, “ofício” ou “habilidade prática de fazer ou produzir algo”. Pode-se segurar a faca e cortar um pão; ou ferir alguém ou a si mesmo: é quem e como utilizam a tecnologia que importa.
Nos átrios eletrônicos da tecnologia da infosfera onipresente, podemos nos perder facilmente, ou perder as coisas que um dia apreciávamos. Muitas delas são, de fato, belas, e tantas vezes sutis: pedem um olhar demorado e comovido.
Mas estamos deixando se obliterar a sagrada contemplação.
A perda da contemplação
Explana o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra Não-coisas:
Conectividade sem limites não produz conexão, um mundo. Ao contrário, tem um efeito isolador, aprofunda a solidão. O eu isolado, sem mundo e depressivo se distancia daquela solidão feliz, daquela altura sagrada da montanha. […] Nada se eleva. Nada se aprofunda. A realidade é nivelada em informações e fluxos de dados. Tudo se espalha e se prolifera. O silêncio é um fenômeno de negatividade. É exclusivo, enquanto o ruído é resultado de uma comunicação permissiva, extensiva e excessiva”.
Para Han, sobram ruídos e faltam silêncios que estabilizem e aprofundem a atenção, e suscitem o olhar contemplativo. O olhar de paciência para o largo e o lento.
Onde tudo está disponível e alcançável, nenhuma atenção profunda é formada.
No smartphone, distraímo-nos do mundo material repleto de significados que nos cerca, pelos lados, acima e abaixo. Assim ignoramos detalhes cativantes e por vezes vitais. Isso acontece quando nos deixamos engolir e deglutir pelas telas e simulacros.
Curta, comente e compartilhe; ou apenas veja e sinta
O ver e o sentir não precisam ser sempre postados, fotografados ou filmados: podem ser apenas vividos. Há uma liberdade bela em apenas viver para viver — não para os outros.
Podemos fazer isso, para além de nossa tendência cada vez maior à passividade, ante o fluxo incessante de informações, ruídos, anúncios, ofertas, rótulos fugazes para pessoas solitárias e fugidias. Ante a não-coisa da informação digital que permeia e domina quase tudo em quase todos os lugares.
Ou podemos sucumbir à solidão na multidão de informações pragmáticas, otimizadas e impermanentes.
A solidão é a grande endemia da Era das Telas; conexões frágeis não constroem acolhimento. Sem acolhimento, o coração humano sofre: ou congela para se proteger, ou se desfaz em dores.
